sexta-feira, 16 de abril de 2010

“Meu nome é Giovanna, já se passaram três anos desde o dia do acidente, mas ainda sinto o cheiro do sangue escorrendo na beira da minha cama. Parece que foi ontem, todas as lembranças vivem em meus pensamentos, é quase uma perseguição cruel que me mata a todo o momento.”
Eu estava no ultimo ano da escola, tinha diversos sonhos como qualquer garota da minha idade e não posso mais realizá-los. Quantas amizades eu tinha no colégio onde estudei a vida inteira, ao menos sei se ainda lembram-se de mim.
Primeiro dia de aula do mês de julho. Bem cedo e eu já estava lá, do lado de fora do colégio esperando pra rever o pessoal. Acenei com a cabeça para alguns amigos que passaram e continuei parada com os braços cruzados, tentando erroneamente esquentar-me do frio. De longe avistei o Luca correndo em minha direção, com o sorriso gigantesco que eu sempre adorei.
Éramos namorados desde o tempo de crianças, amor desses que as pessoas olham e dizem ser pra sempre, namorado para casar-se. Antes tivesse sido assim. Abraçou-me tão forte que por alguns segundos esqueci-me do frio que fazia naquela manhã.
-Minha Giovanna, quanta saudade. – Adorava quando me chamava assim. Ele não parava de sorrir, lindo, quase um anjo.
-Estava com saudades, pensei que as férias não fossem acabar nunca. – Abaixei a cabeça e dei um sorriso de lado, fazendo charme.
-Você não imagina o quanto foi divertida a viagem, deveria ter ido.
-É não teve mesmo como ir, quem sabe da próxima? – Sorri para finalizar.
Entramos de mãos dadas na escola, ele me contava de sua viagem e eu das minhas férias monótonas. Demos um pouco de risada, fizemos alguns carinhos, e o sinal tocou para entrarmos na sala de aula.
-Tchau meu amor. – Olhei para ele e dei um beijo.
-Tchau Giovanna. Eu te amo. – Gritava que me amava feito um louco pelos corredores.
Minha pele pálida ficou vermelha, morria de vergonha quando ele fazia isso.
O dia passou rápido demais e quando me dei conta, já era hora de ir embora. Da janela pude ver o Luca, todo se engraçando com outras meninas, esperando a hora que eu saísse.
-Vamos embora Luca? – Olhei pra ele com a cara fechada.
-Sim claro amor. – Despediu das meninas e saímos da frente do colégio.
Não conseguia entender o porquê, mas fazia algum tempo em que não sentia mais tanto ciúmes do Luca, às vezes era como se eu olhasse para ele e esquecesse que éramos namorados, me sentia estranha por isso, culpada, tinha medo de magoá-lo.
Nesse dia passamos a tarde juntos, ele me levou no cinema, há tempos não fazíamos isso e eu confesso, foi até divertido. Comemos pipocas, tomamos sorvete, depois ficamos conversando na sala da minha casa.
- Giovanna, às vezes eu fico pensando sabe, não sei o que seria da minha vida sem você. – Ele tentou continuar falando, mas eu logo interrompi com uma frase.
-Sério Luca? – Passei a mão no cabelo, fiquei um pouco séria sem ter muito o que dizer.
-Claro que sim, estamos juntos há tanto tempo, isso com certeza é para sempre Giovanna. –Ele conseguia deixar-me incomodada só com o olhar que não parava de fixar em meus olhos.
- Luca, não sei bem se era isso o que você queria ouvir, mas... –Respirei fundo.
-Mas o que Giovanna? – Senti ele bastante ansioso, um pouco tenso.
-Mas, mas... Luca, não tenho certeza se é assim do jeito que você fala, estamos juntos há tanto tempo. Fiquei quieta alguns segundos. - Nunca conhecemos outras pessoas, nunca nos demos essa chance, talvez o nosso amor seja mesmo coisa de criança.
Eu consegui enxergar fogo em seus olhos, ele levantou do sofá e saiu feito um louco inconsciente, batendo a porta, gritando comigo como se tivesse direito por ser o meu namorado.
Comecei a ter mais certeza de que não era Luca meu grande amor, tudo não passava de uma brincadeira, eu estava acostumada com a presença dele, insistindo em um relacionamento que jamais daria certo dali pra frente, era tudo ilusão. O que eu sentia era mais carinho e respeito do que amor. Eu gostava do Luca, mais estava saturada com tudo aquilo, começou a ficar enjoativo, eu estava me sentindo cansada. Ficávamos bem juntos, tínhamos sempre o que conversar, ele me fazia rir, ouvia meus problemas e até me ajudava neles. Eu tinha um grande amigo, e era só isso. A cada dia tinha mais certeza.
O telefone tocou e logo imaginei que fosse ele.
-Alô, quem fala? – Era uma amiga do colégio.
- Tudo bem Giovanna? É a Verônica, como foi à escola hoje?
-Verônica ! Foi ótima a escola, por que faltou logo no primeiro dia ?
-Então Giovanna, estão dando uma festa hoje aqui em casa, vem pra cá, vai ser muito divertido.
-Hoje? Ainda é segunda-feira, está enlouquecendo é? – Dei uma gargalhada.
-Sim, hoje, é pra comemorar a chegada do meu irmão, ele estava viajando, lembra?
-Claro que lembro, já que é esse o motivo, com certeza estarei ai, só espera eu me arrumar.
Desligamos o telefone e logo fiquei empolgada para a festa, afinal Tinha brigado com o Luca. Cheguei à casa da Verônica e fui logo batendo na porta. Não acreditei quando dei de cara com o Beto, irmão dela, ele estava deslumbrante, diferente de tudo, diferente de antes, não parecia o Beto que eu conheci.
-Oi Beto. – Falei quase gaguejando, olhei para ele e não consegui disfarçar o quanto fiquei surpresa.
- Oi Gio, como você cresceu, não pensei que estivesse tão linda. –Olhou nos meus olhos e continuo segurando a porta, sem falar nada.
-Não vai me convidar para entrar? –Falei sorrindo, escondendo a timidez.
-Opa senhorita, entre. –Ele brincou enquanto segurava a porta e esperava eu entrar.
Cumprimentei Verônica, seus pais e os convidados da festa. Fiquei quieta em um canto, ouvindo a música que tocava em um som ambiente. Não conseguia parar de pensar no Beto, quando percebi, ele olhava de longe pra mim. Dei um tchau e mordi os lábios, quase sem querer. Ele se aproximou com uma taça de vinho, ficou parado na minha frente.
- Me acompanha Giovanna? – Ele sorria quase o tempo todo. – Giovanna?
-Sim, claro, mais só um pouco, amanhã preciso estudar. –Peguei uma taça e começamos a beber juntos.
Assunto não faltou, tínhamos mais coisas em comum do que um dia cheguei a imaginar, afinal éramos tão distantes um do outro quando nos conhecemos. Conversamos um longo tempo, não olhei a hora passar. Eu me senti bem ao lado do Beto, como a tempos não me sentia, ele me fez sorrir de verdade, falou sobre assuntos que me chamaram atenção. Encantada, assim que fiquei, isso denomina o meu estado naquele momento.
-Tchau Beto, eu preciso mesmo ir.
-Tchau Giovanna, aparece mais vezes aqui em casa, foi muito bom vê-la. –Deu um beijo no canto da minha boca, e então fui embora.
Cheguei em minha casa correndo, sem ar, sem voz. Eu só conseguia imaginar, lembrar dele.A essa altura eu mal pensava no Luca. Fui dormir sonhando com o jeito do Beto, tão diferente. Tão homem e maduro, tinha uma inteligência fascinante.
Fui para o colégio na terça-feira, foi tão normal quanto qualquer outro dia, minha cabeça estava longe, como sempre eu estava sonhando com o meu futuro, talvez ao lado do Beto, afinal, só ele tomava conta da minha mente, desde a noite passada.
Os meses passaram tão rápido que mais uma vez não percebi. Continuei falando com o Beto, ligávamos um para o outro, chegamos a sair para almoçar em algumas tardes, freqüentávamos um a casa do outro. A cada minuto eu percebia estar um pouco mais apaixonada por ele. Não sei se era recíproco, mas ele me tratava como se eu fosse a pessoa mais importante na vida dele.
Eu não tinha mais falado com o Luca desde o dia em que ele foi grosso comigo, não sabia como ele estava e o meu orgulho jamais deixaria eu ligar para saber notícias, resolvi esperar, esperar para ver o que aconteceria a partir daquele momento, afinal minha vida tinha mudado desde a primeira troca de olhares com o meu novo amor.A campainha tocou e eu corri para atende-la, pensei que fosse o Beto e me deparei com o carteiro.
-Oi, tem alguma correspondência pra mim? – Perguntei surpresa.
-Sim, tenho essa correspondência pra você. – Ele verificou o envelope. – Giovanna né?
-Sim, eu mesma. – Respondi.
-Então, é pra você. –Entregou-me e foi embora.
Abri ansiosa o envelope e ao ler o que nele estava escrito, me senti a pessoa mais feliz e ao mesmo tempo mais triste de todo o mundo. Na folha de papel dizia mais ou menos assim:
“Senhorita Giovanna, você foi aceita para a Universidade Oxford na Inglaterra, parabéns.”
No mesmo instante parei para refletir. Como eu iria para Inglaterra estando completamente apaixonada pelo irmão da Verônica, estava tão perto da viagem, eu teria que fazer tudo tão rápido. Eu queria estar ao lado dele, essa era uma certeza, mas eu tinha que estudar, havia batalhado tanto para conseguir uma vaga na universidade.
Mais uma semana havia se passado, e finalmente tinha decidido, eu iria sim para a universidade, não poderia deixar os meus estudos, a minha vida, por um homem, mesmo apaixonada por ele, quem ama com certeza espera, e isso aconteceria se ele também gostasse de mim. Resolvi escrever um bilhete, faltava pouco tempo para deixar o país, meu passaporte já estava todo certo, não tinha mais nada que me impedisse de viajar, exceto minha paixão pelo Beto. O Luca mal olhava na minha cara, nem conversamos para chegar à conclusão de que realmente tinha acabado um namoro de tantos anos.
O bilhete escrito naquele dia por mim, estava exatamente dessa maneira:
“Não sei nem como explicar, mais eu te amo, e tenho certeza desse amor. Quanto a você, não sei se me ama tanto assim. Os poucos momentos que passei do seu lado foram especiais. De alguma forma você tocou meu coração como ninguém tocou antes. É profundo, intenso, e as vezes chega a doer. Falta coragem para chegar em você, eu sei, mais é que tenho medo, não sei qual seria a sua reação se soubesse que estou perdidamente apaixonada por você. Chegou a correspondência me avisando sobre a universidade e eu não posso perder essa oportunidade. Vou ficar por pouco tempo na Inglaterra, mas sentirei a sua falta, sentirei muito. Não se esquece de mim não, é a única coisa que eu te peço, me espera, me ame em qualquer lugar, me ame a todo o momento, por que eu nunca vou deixar de amar você. Eu volto, volto pra ficar ao seu lado, para sempre. “
Beijos, Giovanna.
Foi uma maneira covarde de falar com alguém tão especial na minha vida, mas agi dessa forma por amor. Foi o jeito que encontrei de dizer adeus antes de ir para Inglaterra. De noite fui até a casa dele, deixei o bilhete debaixo da porta, tão tola, como em uma novela.
Voltei para casa, eu precisava arrumar minhas malas, deixar prontos pequenos detalhes. Com muita dor no peito e chorando sobre minhas roupas, adormeci na bagunça em cima da cama, quando dei conta, já era outro dia e a luz do sol batia na janela do meu quarto, me acordando para enfrentar o meu momento difícil. Era um domingo, e eu já estava quase pronta para sair de casa quando escutei a campainha tocar, era o Beto.
-Giovanna você não pode ir, não pode me deixar. – Ele soluçava, seu desespero estava visível em seu rosto.
-Eu te amo, eu te amo tanto, mas eu não posso ficar, vai ser por pouco tempo meu amor, eu juro.
Ele me abraçou, faltaram palavras para serem ditas, minha carta era pra suprir essa falta que eu sabia que aconteceria. Fiquei sem reação, estagnada.
Derrepente, como em um piscar de olhos, senti o impacto da porta se abrindo com força e quando olhei para trás, era ele, o Luca. Fiquei surpresa, ele parecia estar bêbado, completamente fora de si, um louco doente. Meu olhar foi pra um lado e para o outro quando me dei conta que ele estava segurando um revolver na mão.
- Para Luca, fica ai, por favor. – Eu não sabia como agir naquele momento, era a última coisa que esperava, além do mais, vindo do Luca, sempre tão sensato.
-Cala a boca Giovanna -Ele gritou tão alto que eu comecei a ficar ainda mais apavorada.
-Você é um inconseqüente Luca, vá embora logo. – O Beto falou com calma para que o Luca não se assustasse e cometesse um erro sem pensar. O que de nada adiantou.
Eu olhei para o Luca, ele parecia outra pessoa, estava transtornado, não sabia o que estava fazendo.
-Eu vou matar esse cara Giovanna, ele nunca vai ficar com você, nunca!
-Para Luca, é sério, você não é assim, e...e...eu não tenho nada com o Beto, somos apenas amigos.
Quando dei minha ultima palavra Luca puxou o gatilho, nesse momento cheguei a pensar que fossemos morrer, eu e Beto. Agindo completamente por impulso, com o meu extinto de proteger as pessoas, pulei na frente do Beto, de costas para o Luca. Como se eu tivesse força o suficiente para impedir alguma coisa. Eu infelizmente não era de ferro.
O Luca puxou meu braço com força, eu cai com a cabeça na parede e quando o Beto deu um passo da minha cama até a porta, Luca atirou , lembro-me do barulho, ele não teve um pingo de piedade.Eu escutei os gemidos de dor e angustia do Beto até morrer na minha frente e eu não podia fazer nada, além de chorar.
-Gio, eu te amo, o tempo não esperou por nós dois, o nosso destino foi cruel demais e a morte nos separou antes mesmo de nós nos unirmos. Você é a minha vida, você é a minha vida. –Beto morreu, ao meu lado, por minha culpa.
Eu surtei, devo ter ficado tão transtornada quanto Luca, ao ver Beto ali, no meu quarto,totalmente sem vida. Eu fui pra cima do Luca, querendo matá-lo e ele foi mais rápido do que eu. Mais uma vez disparou o gatilho.
Acordei no hospital, um dia depois fiquei sabendo do suicídio do Luca, ao lado de Beto. Na minha casa, no meu quarto.
Uma enfermeira entrou no aposento onde eu estava e leu pra mim a carta que estava no bolso do Beto.
“Gio, minha princesinha do cabelo louro, desde a noite em que você apareceu na minha casa e me olhou pela primeira vez nos olhos, depois de tanto tempo sem nos falar, senti o meu mundo girar, senti minha vida mudar, você mudou a minha vida, você me faz feliz, me deixa feliz, eu te amo meu amor, eu faço qualquer coisa pra você não ir embora, eu faço qualquer coisa pra ficar ao seu lado. Não me deixa, eu sei que se você for vai ser para nunca mais voltar, a gente precisa ficar juntos agora, por que eu sinto como se tivéssemos pouco tempo, pouco tempo para decidir coisas tão simples. Eu sei, é importante para você ir para outro país, mais pra mim é muito mais importante do que qualquer outra coisa ficar do seu lado, juntinhos, por toda a vida, até que a morte nos separe. Pensa com amor, pensa com o amor que você sente por mim. Eu te espero o tempo que for, mais não sei se tempo espera por nós.”
Beto.
Eu desabei a chorar, mas sabia que aquela era a resposta, a minha resposta, era a carta do meu grande amor, o amor da minha vida.
Ainda sinto o cheiro de sangue nos lençóis da minha cama, lembro desse dia sempre, como se a todo tempo rebobinasse uma fita dentro da minha cabeça.
Era amor, o que nós dois sentíamos, o que eu ainda sinto. Sei que quando olhar para o céu vou encontrar você. Eu te amo mesmo que agora quem tenha que esperar para te encontrar seja eu.
-Muito bom Giovanna, fico feliz que tenha conseguido desabafar, isso ajuda muito na sua recuperação. –Tamara sorrio, ela sabia como me acalmar.
-Obrigada, eu sei que vou ficar bem, eu espero por isso. – limpei minhas lágrimas.
Depois de mais uma terapia com minha piscóloga, em uma cadeira de rodas, fui para casa, passar mais uma tarde amargurada, sozinha no meu quarto. Esperando pelo dia em que vou encontrar o Beto. Eu o matei, e disso nunca vou me perdoar.
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Do lado de dentro
- Letícia Dias
- "Meu nome é Letícia e eu tenho vinte anos, sou estudante de psicologia e escolhi este curso pela imensa paixão por pessoas e pelo constante desejo em conhecer de forma mais profunda os seres humanos e seus mistérios. Gosto de leitura e acredito que ler é poder viajar sem sair do lugar. Romântica, mas sem papas na língua. Fascinada pela vida, pelos amigos, mais família do que nunca. Sonho em morar em um outro país para conhecer uma nova cultura, penso em casar de branco e jogar o buquê, quero que a decoração seja de girassóis. Amo o meu namorado e percebo a cada dia que fomos feitos para completar um ao outro, juntos dizemos que iremos ter dois filhos e sempre discutimos qual será o nome deles, nunca chegamos a um acordo. Acredito que o amor pode mudar as pessoas, mas viver apenas de amor não é o suficiente. Sou sonhadora, mas ainda assim tenho os meus pés no chão. Futuramente pretendo ser psicóloga organizacional, mas neurociência também me deixa balançada. Prefiro o inverno, mas quando está muito frio sinto falta do sol. Hoje eu sou quem eu sempre pensei em ser e também quem eu quero ser".
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A ambição voraz dos seres humanos nunca é saciada quando os sonhos são realizados, porque há sempre a sensação de que tudo poderia ter sido feito melhor e ser feito outra vez.
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